Como sabemos, a COVID-19 é uma doença causada pelo coronavírus Sars-CoV-2, identificado em dezembro de 2019, em Wuhan na China.  Este novo betacoronavírus apresenta um quadro clínico que varia de infecções sintomáticas muito leves a quadros respiratórios graves, e vem gerando enormes transtornos mundo afora, como inúmeros infectados, perdas de vidas, colapsos nos sistemas de saúde, além dos impactos do isolamento social e as quedas bruscas na economia. Por todo o exposto, sem um tratamento ainda comprovado cientificamente, a busca incessante por uma vacina é vista como a grande “luz no fim do túnel”. É possível que uma vacina fique disponível em cerca de 18 meses por causa dos investimentos no mundo inteiro. O mundo parou. Mas o vírus vem se apresentando de forma muito complexa, o que dificulta os avanços na fase 3 da vacina.

 

A busca pela vacina

Para chegar a uma vacina efetiva, os pesquisadores precisam percorrer diversas etapas para testar com segurança a resposta imune. Primeiro há uma fase exploratória, com pesquisa e identificação de moléculas promissoras, os antígenos. O segundo momento é de fase pré-clínica, em que ocorre a validação da vacina em organismos vivos, usando animais como ratos, por exemplo. Só então é chegada à fase clínica, onde são testados em humanos em três diferentes fases de testes:

  • Fase 1: avaliação preliminar com poucos voluntários adultos monitorados de perto;
  • Fase 2: testes em centenas de participantes que indicam informações sobre doses e horários que serão usados na fase 3. Nessa fase, os pacientes são escolhidos de forma aleatória e são bem controlados;
  • Fase 3: ensaio em larga escala, com milhares de indivíduos que precisa fornecer uma avaliação definitiva da eficácia/segurança e prever eventos adversos; só então há um registro sanitário.

Depois disso, as agências reguladoras precisam aprovar o produto, liberar a produção e distribuição. É nessa fase que a maioria das vacinas encontram seus maiores desafios e muitas não conseguem avançar.

 

Das dez vacinas em testes em fase clínica, algumas aparecem em estágio mais avançado, como a desenvolvida por Oxford, em fase 3. A vacina do Reino Unido é produzida a partir de um vírus (ChAdOx1), que é uma versão enfraquecida de um adenovírus que causa resfriado em chimpanzés. A esse imunizante foi adicionado material genético usado para produzir a proteína Spike do SARS-Cov-2 (que ele usa para invadir as células), induzindo a criação de anticorpos. A estrutura científica da vacina é baseada na entrega do antígeno viral nos tecidos da mucosa, fazendo com que o corpo forme anticorpos contra o vírus.

 

Testes no Brasil e no mundo

Existem diversos laboratórios desenvolvendo uma possível vacina contra a Convid-19, entre vários estudos, destacamos o da Universidade de Oxford, que conta com 2 mil voluntários brasileiros, pelo fato do Brasil ser considerado um dos epicentros da pandemia. Os voluntários são pessoas na linha de frente do combate ao coronavírus, com uma chance maior de exposição ao Sars-CoV-2. Em humanos, os testes têm apenas 50% de chance de sucesso. Adrian Hill, diretor do Jenner Institute de Oxford, que se associou à farmacêutica AstraZeneca para desenvolver a vacina, disse que os resultados da fase atual, envolvendo milhares de voluntários, podem não garantir que a imunização seja eficaz e pede cautela.

A vacina já está sendo aplicada em 10 mil voluntários no Reino Unido. A dificuldade para provar a possível eficácia está no fato de os cientistas dependerem da continuidade da circulação do vírus entre a população para que os voluntários sejam expostos ao coronavírus Sars-Cov-2.

 

Outras vacinas em andamento

Relatório publicado no site da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que estão em desenvolvimento pelo menos 133 candidatas a vacina, sendo que dez delas estão na fase clínica, ou seja, sendo testadas em humanos.

Embora os estudos avancem em todo o planeta, muitos especialistas acreditam que a vacina não estará disponível em 2020. Projeções otimistas falam num prazo de 12 a 18 meses, que já seria recorde. A vacina mais rápida já criada, a da caxumba, levou pelo menos quatro anos para ficar pronta.

 

Os desafios

Outra hipótese contra a qual todos os pesquisadores lutam é a de que uma vacina efetiva e segura nunca seja encontrada. O vírus do HIV, que causa a Aids, é conhecido há cerca de 30 anos, mas suas constantes mutações nunca permitiram uma vacina.

“Está todo mundo muito otimista, mas estudo de vacina é algo muito complicado. A maioria deles para na fase 3 de testes clínicos, pelos problemas que aparecem”, diz uma infectologista do HC-FMUSP.

Gustavo Cabral, imunologista que lidera um estudo na USP e no Incor também ressalta a busca por tratamentos: “Para o HIV não há vacina e as pessoas que têm o vírus podem ter uma vida normal. Sabemos que aproximadamente 80% das pessoas infectadas com o Sars-CoV-2 não desenvolvem a Covid-19 ou têm sintomas leves. O problema são os outros 20% e o risco de fatalidade, hoje de 6%. Mas há centenas de estudos sobre medicamentos neste momento”, disse.

 

As iniciativas brasileiras

Duas pesquisas feitas no Brasil aparecem na fase pré-clínica no relatório da OMS.

Um dos projetos é liderado por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor). A pesquisa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Quando um vírus entra nosso corpo, o sistema imunológico ataca. Não queremos utilizar o vírus, queremos usar partículas semelhantes ao vírus. 

 

Outro estudo que merece destaque é o da Fiocruz, que apostam em vacinação inicial contra a covid-19 em fevereiro de 2021 para um público específico. A partir daí a produção nacional das doses poderá garantir imunização à população em geral, afirma a vice-diretora de Qualidade da Bio-Manguinhos (Fiocruz), Rosane Cuber Guimarães. Os recentes resultados de pesquisas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sobre a segurança da vacina contra a covid-19 elevaram o nível de otimismo em todo o mundo que, desde dezembro do ano passado, observam o alastramento do novo coronavírus, causador da doença, em todas as regiões do planeta. 

As pesquisas das fases 1 e 2, exigidas pelo procedimento científico, descartaram efeitos adversos graves provocados pela vacina. Foram registrados relatos de pequenos sintomas, como dores locais ou irritabilidade, aceitos em vacinas contra outras doenças. O Brasil foi um dos países escolhidos para participar da Fase 3 dos estudos, que testa a eficácia da vacina. Os testes, que estão a cargo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e outras instituições parceiras, envolvem 5 mil voluntários de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. 

Rosane Guimarães disse que, em dezembro deste ano, o Brasil receberá 15 milhões de doses e, em janeiro, mais 15 milhões de doses. “Estamos recebendo agora apenas 30 milhões de doses porque precisamos, antes de liberar a vacina, ter certeza da comprovação da eficácia dela. Então nós adquirimos 30 milhões de doses no risco e, se a vacina se comprovar eficaz, vamos receber mais 70 milhões de doses, totalizando, para o país, no primeiro ano, 100 milhões de doses de vacinas”, disse. A Bio-Manguinhos será responsável pela transformação do princípio ativo e fará a formulação final das vacinas. 

Quanto tempo ela durará no organismo de uma pessoa?

Ainda não sabemos por quanto tempo ficaremos imunes à Covid-19, isso tudo ainda está em fase de estudo. É delicado dizer se será por um ano como outros tipos de vírus, assim como a vacina da gripe (Influenza e H1N1), que tomamos todo ano, uma vez que o vírus sofre mutação. Também ainda é muito precoce afirmar se será por 5 ou 10 anos e se será necessário apenas uma ou três doses. 

Mesmo vários laboratórios do mundo inteiro trabalhando para se descobrir uma vacina eficaz, haverá doses suficientes para atender toda população mundial?

Ainda não sabemos. No momento, são mais de 130 laboratórios trabalhando no desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19, mas muitos terão uma linha limitada de produção. Como é um problema que atingiu o mundo inteiro, esse também será um desafio, produzir a vacina em larga escala.

 

Enfim, a vacina é o melhor caminho preventivo, mas não é o único caminho, há também os tratamentos. Importante nos mantermos otimistas, realizando todos os cuidados recomendados como o uso de máscaras, higienização periódica das mãos, evitar aglomerações e respeitar o distanciamento social e, de forma consciente, vamos passar por esse desafiador período, na esperança novos e melhores tempo para todos. 

 

Autora:

Dra. Valéria Regiane Lovison Gerônimo

CRF-SP 25.204

Compartilhar:
Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais por Dra. Valeria Lovison
Carregar mais em Análises clínicas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Covid-19: Quando e Quais Vacinas Podem Chegar Até Nós

Como sabemos, a COVID-19 é uma doença causada pelo corona vírus Sars-CoV-2, identificado e…